Quem pega ônibus sabe (ou não), que este conto de fadas anunciado nos comerciais realmente surpreende.
Não pela cara de pau dos patrões-governantes, mas por ser a propaganda de um transporte público de outra cidade.
Um admirável mundo novo.
Um futuro planejado com todo sarcasmo e abandono a classe trabalhadora.
Diante do sofrimento, costumamos mudar.
Porém, a democracia é uma piada. Foi transformada em um conjunto de gestos indignados contra a corrupção.
Foi misturada ao desejo de justiça. Foi morta com a certeza da impunidade em relação a maracutaia e as alianças políticas.
Hoje vemos que os líderes do nosso atraso, combatem a modernização da cidade através do vale tudo.
Entupir os bolsos e as vias da cidade: prioridades das políticas públicas de transporte.
Prometendo em campanha abrir a caixa preta, abriram os cofres e os bolsos do povo.
Agora, mais uma vez, o aumento das passagens é uma realidade.
Essa greve de ônibus é forjada no ferro e no fogo da ganância, marcando o rebanho, o admirável gado novo.
Fazer greve é liberar as catracas, com portas abertas, com uma real posição contra os patrões-governantes.
Quando a cidade não aguentar mais.
Quando o rodízio de automóveis for implantado.
Quando a violência descer o morro e sermos confundidos com um Rio de Janeiro em vilência ou uma São Paulo de congestionamento, construirão outras pontes.
Com o superfaturamento, novos carros blindados, para fugir das balas e do rodízio, serão comprados com o dinheiro que pagamos pelas passagens.
Isso me lembra aquela história do ratinho:
Preocupadíssimo, o rato viu que o dono da fazenda havia comprado uma ratoeira: estava decidido a matá-lo!
Começou a alertar todos os outros animais:
Cuidado com a ratoeira! Cuidado com a ratoeira!
A galinha, ouvindo os gritos, pediu que ficasse calado:
Meu caro rato, sei que isso é um problema para você, mas não me afetará de maneira nenhuma ,portanto não faça tanto escândalo!
O rato foi conversar com o porco, que sentiu-se incomodado por ter seu sono interrompido.
Há uma ratoeira na casa!
Entendo sua preocupação, e estou solidário com você – respondeu o porco. – Portanto, garanto que você estará presente nas minhas preces esta noite; não posso fazer nada, além disso.
Mais solitário que nunca, o rato foi pedir ajuda à vaca.
- Meu caro rato, e o que eu tenho a ver com isso? Você já viu alguma vez uma vaca ser morta por uma ratoeira?
Vendo que não conseguia a solidariedade de ninguém, o rato voltou até a casa da fazenda, escondeu-se no seu buraco, e passou a noite inteira acordado, com medo que lhe acontecesse uma tragédia.
Durante a madrugada, ouviu-se um barulho: a ratoeira acabava de pegar alguma coisa!
A mulher do fazendeiro desceu para ver se o rato tinha sido morto. Como estava escuro, não percebeu que a armadilha tinha prendido apenas a cauda de uma serpente venenosa: quando se aproximou, foi mordida.
O fazendeiro, escutando os gritos da mulher, acordou e levou-a imediatamente ao hospital.
Ela foi tratada como devia, e voltou para casa.
Mas continuava com febre. Sabendo que não existe melhor remédio para os doentes que uma boa canja, o fazendeiro matou a galinha.
A mulher começou a se recuperar, e como os dois eram muito queridos na região, os vizinhos vieram visitá-los. Agradecido por tal demonstração de carinho, o fazendeiro matou o porco para poder servir aos seus amigos.
Finalmente, a mulher se recuperou, mas os custos com o tratamento foram muito altos. O fazendeiro enviou sua vaca ao matadouro, e usou o dinheiro arrecadado com a venda da carne para pagar todas as despesas.
O rato assistiu aquilo tudo, sempre pensando:
“Bem que eu avisei. Não teria sido muito melhor se a galinha, o porco e a vaca tivessem entendido que o problema de um de nós coloca todo mundo em risco?”
O problema de ser rato e de ser transportado como um porco em carros lotados guiados por motoristas açogueiros em horários esdrúxulos, é de que não existem ratoeiras.
Aqui, as cobras comem os ratos que pagam o pato, quer dizer, a passagem.